9.07.2006

Na varanda ela estica os braços em direção à luz. Umas andorinhas sobrevoam o rio. É verão. A pele muito branca se alaranja. Ela pensa no amor? Em nada. Fecha os olhos e respira a umidade pesada que a molda, que deixa molhados o rosto, os olhos, a pele do colo. Esfrega as mãos contra o rosto, as coxas, sente o sal da pele misturado ao gosto ocre do suor. Quase uma carícia. Mas as mãos têm o peso das águas. Ela é toda um rio. Submersa. O sol a cega. Tem uns olhos claros, da cor das águas. Verdes. O homem sentado à sua frente observa. Percebe a pele alva sob o vestido azul. Tem uns olhos obtusos. Duros. A mulher se movimenta. Busca com o corpo o gesto imóvel daqueles olhos.

--- A imobilidade da superfície de um rio que corre ---

9.02.2006

"You saw nothing of Hiroshima. Nothing."

"I saw everything. Everything. For instance, the hospital.
I saw the hospital. I'm sure of that. How could I miss it?"

"You did not see the Hiroshima hospital. You saw nothing of Hiroshima."


*Lembro a manhã num quarto de hotel. E uma imagem em branco e preto*


(para Pat)
pelas manhãs, ela segue
ainda às cegas, até o banheiro.
agacha-se no vaso abraçando as pernas.

*gosta de sentir o calor do próprio corpo ao acordar*

na parede, os mesmos rabiscos das crianças,
e a fotografia de uma vaca magra e velha a lhe oferecer displicentemente o traseiro.

---
queria tocar aquele traseiro.
mas cada tentativa
machucava-lhe o esmalte vermelho.

3.14.2006

The wind will carry us

"If you come to my house
Oh, kind one, bring me the lamp
and a window through which
I can watch the crowd in the happy street
In my night, so brief, alas
the wind is about to meet the leaves"

(the enginner, in the wind will carry us, by abbas kiarostami)